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Carnavalize


A #SérieDécada traça um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, com texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia!

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram na listagem principal.

Arte e visual: Vítor Melo.

Por Leonardo Antan, com a colaboração de Felipe Tinoco

Infelizmente, nem só de bons desfiles vive o carnaval carioca. Aqui no nosso panorama da última década, já lembramos as apresentações mais marcantes da folia e as que acabaram caindo no esquecimento indevidamente. Hoje é o dia de comentar algumas que ainda são muito lembradas, mas não pelos motivos convencionais. Ora por gerarem memes coletivos, ora por nos brindarem com passagens no mínimo controversas. A gente até se pergunta: aquilo aconteceu mesmo ou foi um delírio coletivo?

Quem nunca errou, não é mesmo? Com a melhor das intenções - a de rir - a gente diminui o tom de seriedade para falar de momentos icônicos, recheados de ensinamentos.

Bora olhar essa lista, aprender com os erros e evitá-los? Se o futuro só se muda conhecendo o passado, um pouco de humor também não faz mal a ninguém! 

Ah: ao invés de fotos e registros dos desfiles, dessa vez, os desfiles estarão acompanhados com memes especialmente preparados que darão o tom dessa divertida lista!


Unidos do Porto da Pedra 2012
(O iogurte azedou)

Existiu um tempo em que patrocínios voluptuosos enchiam os cofres das escolas de samba. Parece que estamos falando de milhares de anos atrás? Talvez! Mas ainda no início da década quase todas as escolas corriam atrás de seu troquinho falando de uma alguma cidade aleatória ou de empresas que nada se relacionavam com a folia. O auge de todo esse processo acabou caindo na conta de uma certa vermelho e branco ao propor um dos enredos mais debatidos e polêmicos do carnaval: o iogurte.




Antes de chegar a São Gonçalo, a empresa de laticínios já havia batido na porta de outras agremiações propondo um gordo patrocínio para quem aceitasse o tema. A Porto vinha de uma das suas melhores apresentações nos onze anos que ficou do especial, como lembramos na lista de apresentações esquecidas. Precisando uma injeção, acabou aceitando de bom grado a ideia, que mal havia? Para desenvolver o tema, o carnavalesco Roberto Szaniecki foi contratado. Ele já tinha experiência em enredos alimentícios e havia se saído muito bem em 2005. O polonês acabou dando uma veia histórica ao tema, o que acabou gerando ainda mais debates. A polêmica já tomou conta do mundo do samba antes mesmo da apresentação, tanto que o carnavalesco acabou deixando a escola antes da escolha de samba, alegando divergências criativas. Para o seu lugar, foi contratado Jaime Cezário, quem deu sequência ao trabalho. Após levantar tanto debate no pré-carnaval, a Porto da Pedra acabou entrando na avenida praticamente rebaixada. Ninguém poupava críticas à agremiação. Além do tema mal desenvolvido, o samba também não era dos melhores, com passagens com gosto para lá de duvidoso. O delírio coletivo da apresentação começou já na comissão de frente que trouxe os lactobacilos da folia. Isso mesmo, os organismos responsáveis por transformar leite em iogurte. Não é um delírio coletivo? Bem verdade é que a promessa de altas quantias até foi realizada, tanto que o que se viu na avenida foi uma escola luxuosa e bem acabada. Isso não foi o suficiente, entretanto, e a Porto acabou rebaixada em um ano que caíam duas e ficou o marco na história carnavalesca: vale realmente tudo pelo patrocínio?  

Acadêmicos do Grande Rio 2013
(Mergulhando no petróleo)

Não bastasse o sofrimento do ano anterior, Roberto Szaniecki acabou se vendo envolto a mais uma polêmica. Após conseguir desenvolver bons temas patrocinados e garantir boas posições para a Grande Rio entre 2005 e 2008, o polonês se reconciliou com a tricolor de Caxias, retornando à escola com mais um tema espinhoso na mão. O ano era 2012 e na pauta política estava em discussão a redistribuição dos royalties da exploração do petróleo pelo Brasil. O Rio de Janeiro, como um dos maiores estados extratores do combustível fóssil do país, viu parte de sua receita ameaçada. Falando em receita, foi atrás de uns trocados que a Grande Rio decidiu apostar no tema e se posicionar na pauta que se propunha a defender “o que é meu” - no caso, o que era do Rio. O resultado? Bem...



A comissão de frente com escafandristas e o verso do samba que dizia “hoje eu vou mergulhar profundo” dão o tom do que foi esse desfile: um abismo sem fim de vergonha alheia. Como gerar alas e alegorias de um enredo tão pouco denso? Ao menos, Szaniecki fugiu da linha histórica de tentar contar a história do combustível fóssil, algo que ele já havia explorado em 2008. Então, as alegorias e fantasias acabaram sendo uma espécie de aula de investimento do dinheiro público: os recursos podem ir para saúde, educação, segurança, cultura… O desfile acabou como um compilado de segmentos potenciais de melhoria com a verba do petróleo, com alegorias e fantasias pouco caprichadas. Outro fato foi a estreia do talentoso Emerson Dias como intérprete oficial da escola, que, ao lado de Nêgo, segurou na animação o esquisito samba. Não bastava tantas qualidades, ou tanta falta delas, mais um episódio icônico ajudou a transformar esse carnaval em alguma espécie de delírio coletivo: o nascimento de um meme atemporal. Depois do clássico “hoje é dia de rock bebê”, Christiane Torloni ainda faria nascer o lendário “tô no carro da iguana”. Muito mais memorável que todo o desfile. Este ainda conquistou um inexplicável 6º lugar e retornou nas campeãs, comprovando que pesadelos se repetem.  

Mocidade Independente de Padre Miguel 2013 
(Rock In Rio? Não vou!)

Da lama então…. A flor se abriu? Para quem achou que bastava apenas um delírio coletivo em 2013, achou errado! Assim como os outros últimos, esse delírio começou na promessa de alguns trocados a mais. Ah, mais uma vez esse tal de patrocínio (furado). Antes mesmo da apresentação de 2012, o enredo sobre o maior festival de música brasileira foi anunciado com pompa e circunstância como tema da Estrela Guia de Padre Miguel, na promessa de uma polpuda contribuição da família Medina. Nos bastidores, a verde e branco ainda passava por uma forte crise política, sob a gestão de Paulo Viana, em uma das fases mais complicadas da história da agremiação. 


Muito se discutiu à época se o tema era possível, já que o festival é uma marca (pra lá de consolidada) e regulamento proíbe propagandas e menções explícitas a empresas. A Liga acabou fazendo vista grossa e não se pronunciou publicamente. Bem, se o patrocínio esperado chegou ou não, ninguém confirma. Mas a julgar pelo que se viu no desfile da Mocidade… A ajuda prometida passou longe. Quem teve a ingrata missão de materializar o tema foi o carimbado carnavalesco Alexandre Louzada. Adepto de uma estética mais luxuosa e opulenta, o artista ainda tentou imprimir um visual mais ousado para o desfile. Visando driblar a falta de grana, canudos de plásticos foram usados em fantasias e jeans doados revestiram uma das alegorias. Apesar da boa tentativa, os problemas plásticos foram inevitáveis com alegorias bem esquisitas. Assim como várias outras apresentações da lista, o desfile também não foi dos mais agradáveis de se ouvir. A obra musical cantada por Luizinho Andanças era fraca tanto melodicamente quanto em seus versos pouco inspirados. Uma pena! A apresentação passou longe do swing perfeito entre pandeiro e guitarra prometido no samba, gerando um quase rebaixamento.


Acadêmicos da Rocinha 2014 
(Uma nada bucólica viagem à Barra da Tijuca)

Sorria, você está na Barra da Tijuca! Nem só de surtos carnavalescos do Grupo Especial vive essa lista. Se algumas escolas da elite já passam por dificuldades financeiras e administrativas, no grupo de acesso então… Apesar do lado triste dessas questões, algumas agremiações também acabam não se ajudando e escolhendo enredos para lá de problemáticos, que geram sambas ainda mais duvidosos, criando um “milk-shake de desfile” para lá de indigesto. Essa mistura de enredos e sambas ruins somados a problemas gerenciais resultou em quase todos os desfiles dessa lista. E não foi diferente nas bandas da Rocinha. 


Apesar de problemas internos, a tricolor da Zona Sul não vinha de maus carnavais. A parceria com o carnavalesco Luiz Carlos Bruno apostava no bom-humor e gerou desfiles leves e brincalhões, como no ano anterior, cantando a culinária brasileira de forma irreverente. Ao receber a difícil missão de contar a história da Barra da Tijuca, na promessa de uns trocados - de novo!! -, o artista seguiu apostando na linha divertida. O tema não se levou muito a sério ao contar a história do bairro que divide opiniões, lembrando as personagens divertidas, como peruas e madames, além dos shoppings e centros comerciais. Mesmo assim, nem o bom humor ajudou. A falta de grana acabou gerando uma plástica para lá de complicada e quase inacabada em alegorias e fantasias. A trilha sonora, por sua vez, teve letra para lá de trash… Ficamos todos bem lelé da cuca, até hoje se perguntando: sorria, é sério que teve um enredo sobre a Barra da Tijuca?


Unidos de Vila Isabel 2014 
(Retratos de um desfile sem fantasias)

A Vila tá pronta? Apesar do título incontestável com uma das apresentações mais marcantes da década, a azul e branco de Noel mergulhou em período complexo após a conquista do título em 2013. Mais uma vez, problemas de bastidores e gestões duvidosas foram um dos responsáveis por gerar uma apresentação a ser esquecida, ou recordada como exemplo a não ser seguido. Contrariando a máxima que defende que time que estava ganhando não se mexe, a escola mudou quase toda sua equipe responsável pelas boas notas no ano anterior. Saiu Rosa Magalhães, entrou Cid Carvalho. Saiu o coreógrafo Marcelo Misailidis, entrou Alex Neoral. O microfone principal, após anos de Tinga, foi assumido por Gilsinho. Já o casal Rute Alves e Julinho deixou o pavilhão para Marquinhos e Giovanna. Ufa!

A equipe nova estava longe de ser ruim! Nomes premiados do carnaval, já ditos, participaram da construção daquele desfile. No entanto, no pré-carnaval, já era conhecido os maus lençóis em que a Vila se encontrava. A escola gerou muitos comentários por conta de seu barracão atrasado. Até poucas semanas da apresentação, muitas alegorias ainda estavam no ferro. A falta de pagamentos de salários e materiais, inclusive, afastou Cid Carvalho da escola em novembro, quando uma comissão formada por Júnior Schall, Décio Bastos e Júlio Cerqueira foi formada. Após algumas negociações, Cid voltou atrás e em janeiro retomou ao trabalho no barracão. Apesar do empenho do carnavalesco, seu enredo sobre a pluralidade da cultura natural brasileira acabou prejudicado na avenida.



Momentos antes do desfile, a confusão na concentração apontaria para uma apresentação catastrófica. Mesmo após uma longa espera, muitas alas e composições não receberam suas fantasias completas, o que formou alas inteiras que desfilaram de roupas íntimas e macacões de malhas. O mesmo também aconteceu em algumas composições de carros. Nessa confusão, nem mesmo a comissão de frente passou impune. Faltando meia hora da escola entrar na avenida, duas das cinco placas que compunham a apresentação da abertura da escola não haviam chegado. Foram montadas às pressas e algumas falharam nas apresentações para o júri, ao representar xilografias tridimensionais. Tantas tragédias fizeram desse um carnaval que a Vila Isabel quis esquecer. O resultado final foi um 10º lugar. Para muitos, a escola merecia o rebaixamento. De qualquer forma, direções passam e deixam estragos; a força de uma agremiação é eterna. 


Mocidade Independente de Padre Miguel 2016 
(As manchas de um Perlingeirão)

Nota dez? É, talvez não. A Mocidade Independente bem que tentava, mas a crise insistente parecia não querer largar a verde e branco. Mesmo após o afastamento da antiga gestão, a escola não teve sorte na pista. Nem mesmo a contração do badalado carnavalesco Paulo Barros foi suficiente para a realização de um bom desfile. E o azar parecia tanto que, após 2015, o carnavalesco do DNA se mudou para Madureira mesmo após renovar o contrato. Pega de surpresa, a escola da zona oeste recontratou Alexandre Louzada e chamou Edson Pereira para compor a dupla. Quando foram anunciados, os artistas chegaram anunciar um enredo chamado #Alendaimaginação. Entretanto, tempos depois, a direção voltou atrás e acabou lançando um novo tema. A confusão já deu um prenúncio de que o caminho para uma boa posição parecia uma missão árdua. 

A confusa narrativa sugerida por um professor universitário usava a figura de Dom Quixote de La Mancha para fazer uma crítica as “manchas” da história brasileira por intermédio de grandes nomes da literatura brasileira… Entendeu? Bem, poucas pessoas conseguiram. Muito menos os autores do samba-enredo, que nos brindaram com passagens exóticas como “lançados jatos de felicidade”. A promessa de tema crítico acabou sendo esvaziado na também confusa comissão de frente, que, além de muito extensa, fazia críticas ao governo de Dilma Rousseff, endossando o movimento anti-petista da época. Em determinado momento, os corruptos [sic] eram presos com maletas de dinheiro. 


A plástica passeou por altos e baixos, mas foi coroada por um final apoteótico e “inesquecível”. Evidenciando os problemas de barracão, uma alegoria (não) finalizada às pressas na concentração trouxe uma despropositada escultura de Jorge Perlingeiro em meio a um trabalho de péssimo acabamento. Na proposta do enredo rocambolesco, o famoso narrador da apuração deveria dar notas dez para a educação, a saúde e a cultura do país. Era o Brasil que a Mocidade queria. A inusitada ideia serviu para gerar apenas uma das imagens mais esquisitas e aleatórias do carnaval. Um hall frequentando por Perlingeirão, Ieiê do Campinho, Hope e Elis Spock que constitui o museu exótico do carnaval. Não bastasse o trauma para os independentes, o desfile deu início a uma “tradição” de últimas alegorias traumáticas em Padre Miguel. Mais um delírio dividido por todos que vivenciaram o espetáculo.


Beija-Flor 2018 
(Monstro é aquele que não sabe desfilar)

Alguém disse enredo crítico confuso e conduzido por um personagem literário? Apostando na mesma fórmula do enredo da Mocidade supracitado, a Beija-Flor surpreendeu quando anunciou que iria comemorar os duzentos anos de publicação do clássico Frankenstein. A escola pretendia aliar a história em uma narrativa que criticasse o conturbado momento político em que o Brasil vivia (e ainda vive). O que ninguém explicou lá em Nilópolis é que mesmo falando de um dos monstros mais clássicos da literatura, a azul e branco não precisava apresentar tantos monstros também na avenida. Criou um trauma coletivo difícil de ser superado. 


Antes de chegar ao desfile em si, valem algumas linhas sobre os bastidores da apresentação, que marcou a aproximação do herdeiro Gabriel David na direção da escola. O filho de Anísio foi um dos responsáveis pelo rumos escolhidos na ocasião, ao lado de Marcelo Misailidis. O excelente coreógrafo da comissão de frente não apenas sugeriu o enredo como também virou uma espécie de de diretor artístico. Ele comandou as encenações apresentadas durante o desfile. A dupla acabou entrando em atrito com a figura totêmica da Beija-Flor: Laíla. A gente ainda volta a essa história, em outro desfile. Segura aí!

Apesar do enredo frágil e confuso sobre um “monstro que não sabia amar”, esse é o único desfile da lista que não traumatizou também os ouvidos dos sambistas. Elogiado no pré-carnaval, o samba campeão da disputa apostava em um refrão valente e em partes bastantes poéticas para dar conta do tema, impulsionando mais uma vez a sempre aguerrida comunidade nilopolitana. Já que não queremos traumatizar ninguém, não vale aqui relembrar imagens dos desfiles que pareciam ter saído de um noticiário sensacionalista e sanguinário. O que nos cabe analisar foi a “aposta” em uma apresentação mais “cênica”, com grande teatralização e alegorias que contavam com coreografias e mudanças de cenários. O resultado, como já comentamos, foi de imagens estupefatas. A falta de carnavalização do tema e sua crueza estética revelaram um gosto nunca antes visto ou sentido. O desfecho dessa história acabou causando ainda mais danos. Cotada por algumas pessoas para a zona mais baixa da tabela, a Beija-Flor acabou se consagrando campeã em um dos resultados mais injustificáveis e constrangedoras da história. Um delírio coletivo tão grande que é até melhor para nossa sanidade mental fingir que tudo isso nunca existiu. Monstro é aquele que não sabe... desfilar.  


Império Serrano 2019 
(O que foi, o que foi isso?)

Mas e a vida? Se Gonzaguinha perguntou se ela era maravilha ou sofrimento. Restou apenas a segunda opção para o glorioso Império Serrano em um triste capítulo de sua história. Na sua esperada volta ao Grupo Especial, o Reizinho acabou apequenado em meios aos problemas de gestão que o assombravam. Mesmo em 2018, a verde e branco sofreu com a falta de verba e lutou para se apresentar de forma digna no enredo sobre a China. Beneficiada por uma virada de mesa liderada pela Grande Rio, a escola acabou tendo mais uma chance de se apresentar na elite da folia. E sem muita coisa a perder, resolveu partir pro tudo ou nada. Ao contratar Paulo Menezes, o artista sugeriu uma ideia ousada: trocar a disputa de samba-enredo para levar à avenida a famosa canção “O que é, o que é?”, de Gonzaguinha, prometendo fazer toda a arquibancada cantar.


Se medida semelhante causou polêmica em 2015, quando a Viradouro uniu duas obras de Luiz Carlos da Vila, o debate se intensificou ainda mais pelo fato da canção do herdeiro de Gonzagão não ser originalmente um samba em si, além de precisar de um ritmo acelerado demais para se entoado em um cortejo. Balões de oxigênio garantidos para a velha guarda imperiana, a ousadia não parou por aí e acabou chegando no casal de mestre-sala e porta-bandeira. Um tripé, que também serviu a apresentação da comissão de frente, transformou-se no palco para a exibição do casal principal. A geringonça mal acabada e cheia de problemas suspendia a dupla de bailarinos para se apresentar ao júri no alto. Um erro absoluto e constrangedor, que ainda ocorreu sob chuva e forte vento. No desfile, as previsões mais otimistas não se confirmaram. A explosão esperada das arquibancadas ao ouvir o intérprete Leléu cantar a obra musical acabou não acontecendo. Talvez porque o público tenha ficado perplexo com o conjunto visual de péssimo nível, prejudicado pela falta de verbas. Ou ainda pelo andamento aceleradíssimo do samba. Em síntese, foi uma sucessão de erros tão visíveis e inquestionáveis que a apresentação nem repercutiu tanto, na verdade. Simplesmente quase não se falou mais sobre ela, reiterando ainda mais sua posição como delírio coletivo absoluto dos últimos anos. É… a vida!

Beija-Flor 2019 
(Fábulas mal contadas)

Apesar de toda polêmica, o título da Beija-Flor em 2018 acabou balizando o estilo “cênico” como uma aposta que “deu certo”. Assim, Gabriel e Misailidis acabaram ganhando mais espaço na escola para dar sequência aos trabalhos, colocando fim ao histórico casamento de Laíla com a agremiação. Tudo até pareceu melhor quando a equipe criativa escolheu um ótimo tema, em teoria: a comemoração dos 70 anos de fundação da Deusa da Passarela. Entretanto, na busca por “ousar”, o desenvolvimento se perdeu mais uma vez ao criar confusas associações entre a história da escola com as fábulas de Esopo. Se no ano anterior a presença forte de Laíla ajudou na garantia de um bom samba  e de um ótimo desfile de chão, o feito acabou não se repetindo. O quiprocó começou nas disputas. Após anunciar uma parceria campeã na final, a diretoria voltou atrás e optou por uma junção. O samba ficou muito aquém do esperado para uma auto-homenagem.



E o visual? O enredo já confuso resultou em alegorias tão surpreendentes quanto. Mais uma vez, apostas em encenações mal concebidas geraram efeitos que, ao invés de surpreender, constrangeram. Uma das mais aleatórias foi a alegoria da Raposa e das Uvas, a qual relembrava os enredos CEPs (?) da Soberana. Essas e outras associações no  mínimo “curiosas” podem garantir bom entretenimento nas descrições do livro abre-alas. Deixamos aqui essa sugestão. Voltando à apresentação, o que se viu na pista foi mais uma Beija-Flor irreconhecível esteticamente e que passou longe de comer a pista como fizera outrora. Juntando isso com a má repercussão do título no ano anterior, o júri acabou caindo em si e canetando com com olhos mais severos a agremiação. A azul e branco terminou, de forma justa, na pior posição de sua história: um amargo 11º lugar. Diante da comemoração dos seus setenta anos, aos nilopolitanos, um delírio completo para jamais relembrar. 


União da Ilha do Governador 2020 
(Entre becos, ruas, vielas e vasos sanitários)

Essa triste história começa no ponto em que deixamos aquele gancho lá no texto sobre Beija-Flor 2018. A briga em Nilópolis gerou o afastamento de Laíla da agremiação, após fincar seu nome na história nilopolitana. Depois do rompimento, o diretor de carnaval pareceu obstinado em repetir a “fórmula” que havia “dado certo”, talvez buscando reivindicar algum louro por aquela “glória”. Em 2019, quando se dividiu entre a Unidos da Tijuca, no Rio, e a Águia de Ouro, em São Paulo, o sambista já havia conduzido enredos com pitadas críticas e encenações na pista que geraram apresentações duvidosas e longe de boas posições. 

Mudando-se para a União da Ilha, Laíla optou por seguir a mesma linha. Sempre em busca de inovação, resolveu dar um extenso título para o enredo, deixando os compositores livres para desenvolver a obra musical, sem apresentação de uma sinopse. A fórmula acabou não dando certo. Se muitas outras vezes o pulso firme do diretor havia gerado boas obras musicais, não foi o que se viu na ocasião, resultando em uma obra nada elogiada no pré-carnaval. A temporada antes da folia, inclusive, gerou muito boatos sobre a apresentação da tricolor. Imagens surreais que seriam propostas já repercutiram nas redes sociais e algumas delas acabaram se confirmando. A apresentação contou com plástica de mau gosto e a falta de um enredo coerente, que mais pareceu um teste vocacional ao elencar diferentes profissões sem um fio narrativo. Tudo isso ainda foi corado com problemas de evoluções graves, que geraram enormes clarões na pista e uma correria ao final que ainda fez a escola estourar em um minuto o tempo regulamentar.


Se a gente achou que estava livre das apostas “cênicas” e de “críticas sociais” após Beija-Flor 2018, estávamos muito enganados. A sorte é que, diferente do título conquistado dois anos antes, um justo rebaixamento acabou acontecendo. E como filho feio não tem pai, ainda rendeu uma troca de acusações entre a equipe criativa da apresentação, composta ainda por nomes como Cahê Rodrigues e Fran Sérgio. Um verdadeiro salve-se quem puder, tal qual prometia o título do enredo. Apesar de fresco na nossa memória, o desfile que rebaixou a União da Ilha após 11 carnavais ininterruptos no Grupo Especial ainda atormenta alguns sambistas nas madrugadas insones. Aquela alegoria de vasos sanitários realmente existiu? E aquele ônibus que simulava um assalto em plena avenida? Que a passagem de anos nos permita esquecer essas imagens! A nossa torcida é pela recuperação das mais simpática e querida das agremiações cariocas para o próximo carnaval.

Como comentamos no podcast (ouça aqui), esse é o vídeo do maravilhoso anúncio do enredo da escola, que pouco disse apenas com o título genérico, mas que muito animou a comunidade. Com direito a Belo e Gracyanne na plateia, e de pulinhos diversos, confira o registro do enredo que já nasceu pronto:



Menções nada honrosas (?) 

Se há um objetivo em repassar tantas apresentações que o carnaval gostaria de esquecer é o desejo para que desfiles como esses não se repitam. Enredos equivocados, sejam movidos ou não por promessas de patrocínios, sambas de qualidade duvidosa e supostas ousadias que em nada conversaram com a linguagem carnavalesca. Fica a dica. 

A única parte positiva, talvez, sejam os memes que nos divertem. Mas verdade seja dita: queremos é ver todas as escolas brilhando!

E como um Top 10 foi pouco para dar conta das coisas insanas que vimos na Sapucaí nos últimos dez anos, separamos a nossa tradicional lista de menções, que talvez não sejam honrosas, de apresentações que geraram momentos divertidos ou trágicos. Todas elas nos fazem repensar se de fato existiram ou se foram delírios coletivos, compartilhados pelos espectadores na Sapucaí e na transmissão ao vivo por todo país. 


Caprichosos de Pilares 2011 (Gente Humilde)

Estácio de Sá 2012 (Luma de Oliveira)

Renascer de Jacarepaguá 2012 (Romero Britto)

Tradição 2013 (Ieiê do Campinho)

Estação Primeira de Mangueira 2013 (Libélula de Cuiabá)

Mocidade Independente de Padre Miguel 2015 (É de enlouquecer amor)

Caprichosos de Pilares 2016 (É o Pet, é o Pet, é o Pet)

Santa Cruz 2018 (Hope)

Grande Rio 2019 (Quem nunca?)


E aí, o que você mudaria? Qual apresentação você sentiu falta? Conte para nós, por nossas redes sociais, qual seu #TOP10 de delírios coletivos do Rio de Janeiro no período de 2011-2020! Contribua e colabore, sempre, com a #SérieDécada!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir! Se liiiga e carnavalize conosco!

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A #SérieDécada traça um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, com texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia!  

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram na listagem principal.



Texto: Leonardo Antan.
Revisão: Felipe Tinoco.
Visual e arte: Vítor Melo.

A nossa lista de hoje está afetiva! Só amorzinho!

Se o nosso balanço dos últimos dez anos já passou pelas apresentações mais marcantes da festa, os melhores sambas e as personalidades, e ainda lembrará os verdadeiros delírios coletivos que talvez devêssemos de fato esquecer, chegou a hora de relembrar ótimos desfiles desses últimos carnavais, mas com um toque diferenciado: eles acabaram passando mais despercebidos ao longo do tempo e se perderam nas memórias de alguns sambistas. 

São cortejos que podem estar longe da brigar pelo título, mas que reúnem uma série de qualidades que dão aquela graça e leveza que o carnaval precisa ter. Complementam o ano de suas apresentações como ninguém. Dignos de aquecer o coração de qualquer um, colecionam diversas qualidades como belos enredos, sambas simpáticos e plásticas criativas. Alguns deles, inclusive, mereciam até algumas posições melhores, enquanto outros acabaram sendo prejudicados por problemas de pistas. 

Quer saber quais as apresentações esquecidas, ou pouco lembradas, da década? Então vem com a gente nessa lista super graciosa!

Lembramos, novamente, que a ideia NÃO é criar um ranking, em uma listagem se hierarquia. Aqui, serão apresentados em ordem cronológica.


Porto da Pedra 2011
 (O sonho sempre vem para quem sonhar...)

Um dos componentes da comissão de frente daquele desfile. Foto: Adriana Lorete/Riotur.
Antes de beber um copo de iogurte amargo, a Porto da Pedra fez uma das suas melhores apresentações no Grupo Especial durante os onze anos ininterruptos que passou na elite da folia neste século. Dando sequência à parceria com o carnavalesco Paulo Menezes por mais um carnaval, a vermelho e branco de São Gonçalo homenageou uma das maiores autoras teatrais brasileira: Maria Clara Machado, ícone da dramaturgia infantil e criadora do Teatro Tablado. Foi a segunda vez que Menezes desenvolveu um tributo à artista. Em 2003, no Acesso, pela União da Ilha, no enredo "Chega em seu cavalinho azul uma bruxinha boa. A Ilha trouxe do céu Maria Clara Machado", ele já havia realizado uma apresentação alegre e marcante sobre a dramaturga.


A alegoria que lembrava a Arca de Noé com o colorido e a singeleza marcantes do desfile. Ao fundo, o inflável que trouxe o fantasminha Pluft. Foto: Adriana Lorete/Riotur.
Reunindo toda a delicadeza e leveza que o enredo pedia, a agremiação passeou pela obra de Maria Clara em alegorias coloridas e lúdicas. O abre-alas trouxe o símbolo da escola amadeirado; um belo tigre em meio a um teatro de marionetes. Outra grande imagem da apresentação foi um inflável que sobrevoou a bateria e trouxe uma acrobata estrangeira vestido como o fantasminha Pluft, de uma fofura sem igual! O samba-enredo foi outro trunfo da escola. A obra seguiu o tom singelo e tinha grande qualidade poética, além de ser muito bem defendido pelo intérprete Luizinho Andanças. A apresentação, que terminou com um belo e sugestivo tripé "Sonhou?", amargou apenas a 8ª colocação, em um ano em que apenas nove agremiações eram julgadas. Valia uma vaga nas campeãs. Fica a certeza que sonhamos, e muito, com essa bela apresentação da Porto da Pedra.


Imperatriz Leopoldinense 2013
(Pará - O Muiraquitã do Brasil)

Ainda perdida após o longínquo e frutífero casamento com Rosa Magalhães, dá pra dizer que a Imperatriz só conseguiu se reencontrar definitivamente em 2013, em uma apresentação caprichada como as dos tempos áureos da professora. Após três carnavais de altos e baixos sob o comando de Max Lopez, a Rainha de Ramos trouxe o carnavalesco Cahê Rodrigues para trabalhar ao lado dos cenógrafos Mário e Kaká Monteiro. A parceira rendeu um desfile CEP sobre um estado muito rico, o Pará. Sua diversidade cultural foi muito bem representada pela verde e branco naquele cortejo. A abertura já trouxe o capricho e bom gosto que marcariam o restante do desfile na bela comissão coreografada por Alex Neoral. Ela emulou a floresta amazônica e teve como destaque a aparição de Fafá de Belém empunhando a bandeira de seu estado natal. A presença da cantora, aliás, é digna de nota. Após passar na comissão de frente, Fafá voltou para a concentração e desfilou pela segunda vez, à frente do último carro, como uma romeira do Círio de Nazaré. Fez isso 4 anos antes da colega Ivete Sangalo!

A ala de baianas de temática indígena foi um dos destaques do belo conjunto estético. Foto: Alexandre Macieira/Riotur.
Voltando à qualidade do desfile, o que se viu foi um conjunto estético de alto nível, que aliou belas e requintadas fantasias, concebidas por Leandro Vieira, atuando na época como assistente de Cahê; Os figurinos já demonstravam o estilo que o carnavalesco viria a consolidar em sua carreira solo. O conjunto alegórico também foi muito bem concebido por Mário e Kaká, trazendo alegorias menores do que a volumetria habitual da festa costuma proporcionar, mas bastante cênicas e com propostas ousadas. Além do visual deslumbrante, a verde e branco também esteve mais uma vez bem servida de samba-enredo. A boa obra musical foi bem conduzida por Dominguinhos do Estácio e Wander Pires, que formavam uma peculiar parceria. Tantas qualidades fazem dessa não só uma das apresentações mais simpáticas daquele ano: valia um pouco mais do que o honesto 4º lugar alcançado por Ramos, e a memória contínua dos foliões.


Inocentes de Belford Roxo 2014
(O triunfo da América - O canto lírico de Joaquina Lapinha)

Um ano após fazer sua sonhada estreia no Grupo Especial, a Inocentes de Belford Roxo voltou ao Acesso de cabeça erguida, demonstrando qualidades que não apresentou na elite do carnaval, como ótimos enredo e samba. Quem ajudou na escolha desses elementos foi ninguém menos que Laíla. Ele chegou a ser anunciado como Diretor de Carnaval da agremiação, mas atuou apenas como uma espécie de conselheiro da tricolor da Baixada. O lendário nome ajudou indicando o excelente tema sobre a cantora lírica Joaquina Lapinha. Durante a disputa de samba, também fez mais uma de suas polêmicas junções, mas proporcionou uma obra musical de bastante qualidade. Apesar da batuta do mestre, quem comandou os trabalhos criativos da Inocentes foi o carnavalesco Wagner Gonçalves, continuando na agremiação após o rebaixamento.

Uma bela visão área do desfile da Inocentes e do trabalho de cor proposto por Wagner Gonçalves. Foto: Tata Barreto/Riotur.
O bem sacado enredo sobre a história pouco conhecida da negra mulher, que saiu de Vila Rica para conquistar Portugal, gerou um interessante conjunto visual. Como havia feito no ano anterior, Wagner tentou propor soluções criativas e com certa ousadia para o conjunto alegórico, o que funcionou nos dois primeiros carros da Caçulinha da Baixada. A estética do desfile como um todo apresentou altos e baixos, mas teve seu destaque no conjunto de fantasias, no qual se via referências de um visual africano mais arrojado. Outro ponto alto da apresentação foi sua comissão de frente, que lembrou as savanas africanas com o uso de engenhosos costeiros com palhas. Na abertura, apenas uma prévia do talento de Patrick Carvalho - quem teve na Inocentes, desde 2012, o início de uma carreira carnavalesca de grande sucesso. Quem também brilhou foi Ciganerey, em uma bela performance e usando seu talento para sustentar a canção da tricolor de forma valente. Valeu bem mais que o 10º lugar alcançado pela Inocentes, uma posição tão contestável que acabou afastando o presidente Reginaldo Gomes após aquela apresentação. É digna, de qualquer forma, de todas nossas afetuosas memórias.

Mocidade Independente de Padre Miguel 2014 
(Pernambucópolis)

Passando por uma crise política e de identidade que completava exatos dez anos naquele ano, a Mocidade teve bastante o que lamentar durante todo o conturbado pré-carnaval que viveu em 2014. Algo ainda mais fortificado após quase flertar com o rebaixamento em uma complicada apresentação sobre o Rock In Rio em 2013. Entretanto, ninguém podia imaginar que mesmo assim a Estrela Guia de Padre Miguel faria uma de suas mais simpáticas apresentações da década, revelando a força da agremiação mesmo em um momento difícil. Após passar por maus bocados na Portela, o carnavalesco Paulo Menezes também não teve sorte quando foi contratado pela verde e branco. O barracão sofreu com muitos atrasos e só começou a andar semanas antes do carnaval, quando finalmente o polêmico presidente Paulo Viana foi afastado por irregularidades. A decisão judicial marcou o retorno da família Andrade à escola, com Rogério Andrade coroado como patrono. As figuras que passaram a ditar as regras apoiaram a Mocidade e ajudaram a dar um gás para a produção da apresentação.

A explosão colorida e tropical deu o tom visual do enredo que lembrava o genial Fernando Pinto. Foto: Marco Antonio Cavalcante/Riotur.
Apesar de tantos problemas internos, a Mocidade tinha de saída um excelente enredo passeante pela cultura do estado de Pernambuco, por meio de Fernando Pinto, lá nascido. O lendário carnavalesco cacheado e tropicalista serviu de fio condutor da narrativa, em estrutura parecida com que Menezes usou na Portela em 2012 e 2013, nos enredos Clara-Bahia e Madureira-Paulinho da Viola. O enredo foi batizado com uma referência ao lendário carnaval de 1987 da escola da Zona Oeste. O desfile rendeu uma plástica surpreendente, que conseguiu aliar o estilo mais clássico e rococó de Menezes com a irreverência tropical de Pinto. Essa mistura já foi vista na comissão de frente de Sérgio Lobato, com Xuxas espaciais em referência ao enredo "Beijim, Beijim, bye, bye Brasil", de 1988. Naquele carnaval, a abertura da Mocidade também trouxe integrantes fantasiados de rainha dos baixinhos. Fernando, entretanto, não viu o desfile da escola e nem suas Xuxas, já que faleceu precocemente em novembro do ano anterior, 1987, após um acidente de carro. Do belo conjunto alegórico da agremiação, destacou-se a alegoria sobre o boi-bumbá e a enorme escultura de Pietá em sua versão de barro. Também simpático, o samba-enredo da parceira de Dudu Nobre, que retornava à sua escola de coração, conquistou fãs por seus versos alegres e bem sacados, embalando um desfile surpreendente. Deve ser recordado, mesmo tendo conquistado um 9º lugar. 

Imperatriz Leopoldinense 2014
(Arthur X – O Reino do Galinho de Ouro na Corte da Imperatriz)

Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, ôôô, o show começou! Depois da já aqui elogiada apresentação de 2013, a Imperatriz seguiu trilhando boas escolhas em seus carnavais. Apesar do ótimo fruto da parceira estabelecida em 2013, Mário e Kaká Monteiro se despediram da agremiação, deixando apenas Cahê Rodrigues na comando criativo. Acostumada a temas mais históricos, a Rainha de Ramos surpreendeu ao anunciar uma homenagem a um ícone popular do futebol: Zico. O grande trunfo da escola foi a boa condução do enredo, que poderia soar banal. Ele ganhou ares fantásticos ao transformar Arthur Antunes Coimbra (Zico) em Arthur X, traçando um paralelo com a figura celta de Rei Arthur e dando ao esportista um verdadeiro Reino do Futebol. Esse fio condutor possibilitou um ótimo passeio pela história do jogador, nascido na região da Leopoldina, vencedor de batalhas pelo Flamengo e ídolo no Japão. 

O grande homenageado desfilou no dia de seu aniversário no alto da coroa da Imperatriz. Foto: Marco Antonio Cavalcante/Riotour.
Assim como a condução do enredo, a plástica também surpreendeu. Quem esperava ver um visual composto apenas de meiões e bermudas acabou se decepcionando. A proposta épica possibilitou a criação de fantasias e alegorias requintadas no estilo ao qual a verde e branco estava acostumada. Cahê novamente contou com o auxílio de Leandro Vieira na concepção de fantasias e alegorias. Já na comissão de frente, Deborah Colker fez um caprichoso trabalho com seu já reconhecido estilo contemporâneo. A narrativa do grupo homenageou todos os meninos brasileiros que sonham ser jogadores de futebol, como um dia Zico o fez. Após muitos elogios e notas insatisfatórias em 2013, o casal Rafaela Theodoro e Phelipe Lemos também fez uma ótima apresentação e conquistou o reconhecimento do público e da crítica. Mais um trunfo para além da simpatia do homenageado foi o samba-enredo escolhido pela agremiação. A obra, defendida por Wander Pires, era animada e explodia em um refrão contagiante, que emulava os gritos de torcidas dos estádios de futebol. A composição era do cantor Elymar Santos, torcedor da alviverde e campeão da disputa de samba logo na sua estreia. Chegou-se a apontar a Imperatriz como uma das favoritas ao título nos primeiros minutos do cortejo, mas a chance de campeonato acabou sendo prejudicada por vários problemas de evolução. O abre-alas teve dificuldades de locomoção logo na primeira cabine de julgadores, quando uma chuteira que vinha à frente do carro travou. A última alegoria, com o homenageado, também empacou em frente ao Setor 1, gerando um problemático buraco. O resultado não foi injusto e a escola conquistou o 5º lugar em um carnaval para lá de disputado. 

Unidos de Vila Isabel 2016
(Memórias do Pai Arraia - um sonho pernambucano, um legado brasileiro)

Após o seu terceiro título, a Vila Isabel passou por altos e baixos na década. Depois da polêmica apresentação sem algumas fantasias em 2014, a azul e branco não conseguiu se restabelecer completamente, mesmo com o samba de 2015 prometendo a volta da "dignidade ao ninho". Enfrentando sérios problemas administrativos, o cenário continuava não sendo tão animador àquele carnaval que se desenhava. Na batuta criativa, a agremiação se reencontrou com Alex de Souza, retornando ao bairro de Noel após um bem sucedido casamento com a União da Ilha. Outro trunfo daquele ano foi a aproximação de Martinho da Vila. O compositor participou ativamente da escolha do enredo, em homenagem ao político pernambucano Miguel Arraes no ano de seu centenário.

O belo conjunto visual criado pelo carnavalesco Alex de Souza. Foto: Alexandre Macieira/Riotur.
O tema, a princípio espinhoso e de difícil materialização, desenhou-se com originalidade. Mais uma vez afiado em suas narrativas, Alex soube passear pela cultura de Recife e os aspectos políticos do homenageado sem cair no pieguismo. E mesmo enfrentando a falta de verbas e de estrutura que deram o que falar no pré-carnaval, a Vila Isabel surpreendeu a Sapucaí com um belíssimo trabalho estético do artista, tanto em alegorias como em fantasias. Outro trunfo da apresentação foi o ótimo samba que envolvia uma super parceria composta pelo próprio Martinho, Mart'nália, André Diniz, Leonel e Arlindo Cruz. Mesmo cheio de qualidades, o excelente samba-enredo acabou sem tanto destaque e com menos elogios do que merecia em uma safra repleta de grandes obras. Além de sua qualidade musical, o samba funcionou muito bem na apresentação oficial também graças à atuação de Igor Sorriso, que estreava na escola. Uma pena que a transmissão oficial do desfile cortou a apresentação ainda em andamento, não exibindo a última alegoria que lembrava o Galo da Madrugada. Mesmo com qualidades suficientes que valessem uma volta nas campeãs, a Vila ficou no 8º lugar. Seus torcedores, entretanto, devem sempre se orgulhar desse carnaval posicionado, ligado à tradição de pautas relevantes e à defesa de lutas sociais que permeiam a história de Miguel Arraes, de Martinho da Vila e de Vila Isabel, embora a escola esteja derrapando nas últimas temáticas.


Acadêmicos da Rocinha 2017
(No saçarico da Marquês, tem mais um freguês: 
Viriato Ferreira)

Assim como o caso da Vila Isabel em 2016 e da Mocidade em 2014, esse desfile da Rocinha também teve seus bastidores conturbados e foi marcado pela falta de verba. Foi, assim, também uma apresentação de afirmação e renascimento para a agremiação e para o seu carnavalesco. De um lado, a tricolor da Zona Sul buscava  estabilidade no grupo após o retorno de uma temporada na Intendente Magalhães. Do outro, o jovem João Vitor Araújo buscava se reafirmar na festa após um ano de hiato dos holofotes principais, quando trabalhou como figurinista para Paulo Barros na Portela em 2016. O casamento deu muito certo. Além disso, mais uma característica comum a outros desfiles citados dessa lista foi o excelente enredo proposto, que reverenciou uma figura de bastidor, pouco conhecida, mas que de enorme relevância: Viriato Ferreira.

A alegoria em homenagem aos carnavais de Viriato na Portela misturou o circo com o fundo do mar. Foto: Fernando Grilli/Riotur.
Escondido atrás de figuras mais midiáticas, como Joãosinho Trinta e Rosa Magalhães, Viriato deixou sua assinatura na festa em figurinos luxuosos e que dialogavam com o Teatro de Revista. Esteve por trás de grandes carnavais de João, como "O mundo é uma bola" e "Ratos e Urubus". Também assinou carnavais solo na Portela, quando foi campeão em 1980 com "Hoje tem marmelada". Em 1991, assinou o carnaval da Imperatriz. Já doente, foi o responsável por fazer a ponte que levou a contratação da professora Rosa pela escola de Ramos. Em 1993, quando auxiliava Rosa com desenhos de alguns figurinos no enredo sobre a história do carnaval, o artista nos deixou precocemente e ganhou uma homenagem da professora na última alegoria. A frase contida naquele carro batizou o enredo da Rocinha, que passeou por estas três agremiações nas quais Viriato foi ligado: Portela, Beija-Flor e Imperatriz. Afirmando seu bom gosto e requinte, João Vitor conseguiu driblar a falta de estrutura e verba da agremiação, apresentando um belíssimo show de fantasias e alegorias, bem coloridas e vibrantes. Para embalar o visual, um simpático samba ajudou a conduzir a boa apresentação. A Rocinha faturou um honroso 6º lugar e fez uma das mais simpáticas e agradáveis apresentações do trágico ano de 2017. Viva Viriato!

União da Ilha 2017
(Nzara Ndembu - Glória ao senhor tempo)


Eu vou incorporar, hein! Como não amar um desfile que rendeu um dos melhores memes recentes da folia? Após flertar com o rebaixamento com o seu segundo carnaval inspirado pelos jogos olímpicos na década, a União da Ilha fez uma aposta ousada para o carnaval de 2017, fugindo do seu famoso estilo de leveza e alegria. Buscando novos rumos, a tricolor contratou Severo Luzardo para fazer sua estreia no grupo principal, após bons serviços prestados na Série A. Deixando a tríade "bom, bonito e barato" de lado, a aposta foi em um enredo denso sobre o candomblé banto. Dessa forma, marcou o primeiro tema desenvolvido sobre um inquice na Sapucaí, explorando a rica cultura ancestral de Angola, diante de uma manifestação cultural - as escolas de samba - acostumada a narrativas religiosas ligadas ao tronco nagô-iorubá.

O gigantesco abre-alas tinha uma escultura de 18 metros de altura. Foto: Cezar Loureiro/Riotur.
Passeando por elementos da natureza e divindades bantas associadas a eles, Severo apostou em uma estética voluptuosa e requintada. A volumetria do conjunto alegórico chamou atenção já no abre-alas, que trouxe uma enorme escultura que alcançava 18 metros quando erguida. Os próximos carros mantiveram o alto nível, formando um belíssimo conjunto com as luxuosas fantasias da tricolor insulana. A comissão de frente foi assinada pelo experiente Carlinhos de Jesus, apostando em truque que parecia fazer levitar um dos bailarinos. O casal de mestre-sala  porta-bandeira também não ficou devendo na estreia de Phelipe Lemos e Dandara Ventapane na insulana. Tudo isso foi embalado por um dos grandes sambas da escola na década, mais uma vez defendido magistralmente por Ito Melodia. A grande atuação do cantor foi acompanhada muito bem pelo excelente trabalho de Mestre Ciça à frente dos ritmistas. Porém, se tantas qualidades podiam fazer a tricolor sonhar com uma vaga nas campeãs, problemas motores nas grandiosas alegorias acabaram prejudicando a evolução. As dificuldades geraram enormes clarões na pista e fiizeram a agremiação correr para encerrar o cortejo dentro do tempo previsto. Terminou em 8º lugar.


Imperatriz Leopoldinense 2017
(Xingu, o clamor que vem da floresta)

Mais um desfile da Imperatriz na lista e mais uma apresentação da parceria entre a escola e o carnavalesco Cahê Rodrigues. Durante seis carnavais, os dois passearam por uma gama de enredos variados. Após o Pará e o Zico já lembrados aqui, a escola ainda cantou a África Pop de Axé Nkenda e a dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Voltando a apostar em uma narrativa mais geográfica, "Xingu" fez uma homenagem aos povos indígenas que ocupam a área que corta o norte brasileiro. Além da natureza e dos saberes dos verídicos donos dessa terra, não faltou ainda  homenagem à atuação dos irmãos Villas-Bôas como defensores do local e da criação do Parque Indígena da região.

Os dançarinos da comissão de frente levitam entre os componentes de uma ala. Foto: Tata Barreto/Riotur.
Acostumada com a discrição, a Rainha de Ramos pisou na Avenida após ganhar visibilidade com uma série de polêmicas no pré-carnaval. A fantasia de uma ala que criticava o agronegócio repercutiu negativamente pelos ruralistas e fazendeiros, gerando polêmicas. Além disso, um verso do samba também gerou discussão ao citar o "Belo monstro que roubava a terra de seus filhos", em referência à construção da usina de Belo Monte. Apesar disso, a verde e branco passou na pista já superada de tantas polêmicas. A plástica assinada por Cahê Rodrigues se mostrou imponente, com interessantes escolhas visuais, apesar de problemas de acabamento em algumas alegorias.

O lendário Cacique Raoni não só se fez presente, como foi lembrado no samba-enredo da escola. Foto: Rodrigo Gorosito/G1.
A apresentação começou com uma bela comissão de frente coreografada por Claudia Motta, trazendo uma bonita coreografia e um tripé com uma coroa, símbolo da escola. Musicalmente, a verde e branco estava bem servida com uma obra poética e que marcou a estreia de Arthur Franco como intérprete. À época desconhecido, o cantor lírico gerou desconfianças, mas acabou tendo uma ótima atuação ao não deixar o longo e melodioso samba se arrastar na Avenida, como já havia acontecido em anos anteriores na agremiação. Para essa missão, ele contou com o excelente desempenho da bateria de Mestre Lolo. Mesmo com tantas qualidades, o ponto alto do desfile foi a presença emocionante do líder indígena Raoni, parte marcante não só da trajetória do Xingu mas da história recente do Brasil. Mesmo com um visual honesto e bem nos quesitos musicais, a Imperatriz não desfilou nas campeãs, quando muito defendiam sua volta entre as seis primeiras posições. Então, relembremos e relembremos esse gostoso desfile!

São Clemente 2019
(E o samba sambou...)

Frequentando o Grupo Especial de ponta a ponta nesta década, a São Clemente teve altos e baixos na busca por garantir essa vaga e essa estabilidade conquistadas dignamente em 2012. Os rumos da escola mudaram definitivamente com a chegada de Rosa Magalhães, que realizou bons carnavais, não tão bem avaliados. A falta de peso da bandeira também prejudicou a boa parceira entre a preto e amarela com Jorge Silveira, que cumpriu a difícil missão de substituir a professora em 2018. Marcada pelos enredos críticos nos anos 80, a escola da Zona Sul demorou a surfar na onda das narrativas sociais que marcaram a segunda metade da década. Após fazer uma ponte entre o estilo acadêmico de Rosa em homenagem à história da Escola de Belas Artes (EBA), Jorge resolveu resgatar a irreverência de Botafogo, com uma reedição do samba de seu carnaval mais famoso. 

Bem-humorado, o segundo carro alegórico criticou os camarotes barulhentos e cheios de celebridades.  Foto: Fernando Grilli/Riotur.
Reinterpretando o enredo de Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa quase trinta anos depois, o carnavalesco atualizou com propriedade as críticas aos rumos das escolas de sambas. Seu característico traço cartunesco deu o tom a uma apresentação leve e divertida, que se comunicou com o público desde a comissão de frente coreografada por Junior Scapin. Relembrando as sucessivas viradas de mesas do carnaval nos anos anteriores, o grupo deu a tônica do desfile que seguiu falando de carnavalescos vaidosos, camarotes com músicas ensurdecedoras, os cartolas do samba e componentes robotizados. 

O último carro da São Clemente, que brincava com o corte de verbas, passa "incompleto" na Sapucaí. Foto: Rodrigo Gorosito/G1.
O bom trabalho estético foi coroado com uma das mais belas alegorias daquele ano. Uma estrutura vazada, com ferros em amarelo, representou um carro incompleto após o corte de verbas, trazendo como destaques os carnavalescos que batalhavam na Série A com a falta de grana. O famoso samba-enredo da escola, composto por Helinho 107 e seus parceiros, foi conduzido por Leozinho Nunes, Bruno Ribas e Larissa Luz. Ótimas bossas da Fiel Bateria também aconteceram no refrão do meio, em referência à hollywoodização da folia. Infelizmente, mesmo com um samba fácil de cantar e bastante conhecido, a harmonia da escola não se destacou mais uma vez e ficou devendo em animação. Isso não tirou o brilho de um desfile para lá de simpático que amargou um inexplicável 12º lugar, na beira do rebaixamento. O samba realmente sambou e a gente tenta se lembrar das memórias da melhor forma!

Menções honrosas

Como a gente sempre gosta de dizer, não é tarefa fácil a missão de escolher apenas um #TOP10 de presentações, ainda mais nessa lista de caráter tão subjetivo. Foi um debate intenso entre nossa equipe, mas que tentou mapear apresentações com muitas qualidades e de forte caráter afetivo. São os nossos xodózinhos da década e que acabaram ofuscados nas lembranças carnavalescas, perdendo espaço para as apresentações mais marcantes de cada ano - seja pro lado positivo ou negativo. Além dos citados na lista principal, separamos algumas menções honrosas de apresentações poucos lembradas mas que valem muito serem revistas ou conhecidas. Novamente, registramos que não há hierarquia nem lista principal, nem nas menções.

Corram para o Youtube para ver essas belezuras e depois nos agradeçam!


União da Ilha 2011 (O Mistério da Vida)

Mocidade Independente de Padre Miguel 2012 (Por ti, Portinari: rompendo a tela, à realidade)

Unidos de Padre Miguel 2013 (O reencontro entre o céu e a terra no Reino de Alá Àfin Oyó)

Acadêmicos da Rocinha 2013 (Mistura de sabores e raças: Uma feijoada à brasileira)

Acadêmicos do Grande Rio 14 (Verdes olhos sobre o mar, no caminho: Maricá)


Caprichoso de Pilares 2015 (Na minha mão é mais barato)

Unidos do Viradouro 2017 (... E todo menino é um rei)

Porto da Pedra 2018 (Rainhas do Rádio - Nas ondas da emoção, o Tigre coroa as divas da canção!)


Renascer de Jacarepaguá 2019 (Dois de fevereiro no Rio Vermelho)


Paraíso do Tuiuti 2019 (O salvador da pátria) 

Fique à vontade para fazer sua lista e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 de desfiles poucos lembrados do Rio de Janeiro dessa década?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir! Se liiiga e carnavalize conosco!
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