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Carnavalize

 

O Quilombo do Samba é um coletivo negro de pesquisadores do carnaval brasileiro propondo uma discussão afrocentrada sobre a festa. Quinzenalmente aos sábados, suas reflexões vão ar aqui no Carnavalize.


Texto: Gabriela Sarmento e Guilherme Niegro


As memórias das Escolas de Samba estão ligadas pelas mãos das Tias Baianas, que não são apenas uma ala em cada desfile; as baianas são registros do matriarcado africano aqui na diáspora do Rio de Janeiro. Sua origem, se é que podemos dizer assim, remete à figura antiga dos folguedos dos Quilombos, passando pelas folias das Congadas e Reisadas, Ranchos e Blocos.

A raiz estás nos terreiros os Quilombos religiosos, com os Afrodiásporicos descendentes de africanos e africanas que foram escravizados por quase quatro séculos, que se confluem no final do século XIX e início do século XX – período da falsa “abolição” de negros e negras escravizados (as). Afrodiásporicos vindos da Bahia, do interior do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e São Paulo, principalmente. Essas confluências das memórias de quatro séculos se sustentam na região chamada de Pequena África. Concordamos aqui com o Espaçólogo Wallace Lopes da Silva: só o significado desta expressão que foi esvaziada. 

O autor cunha o conceito de geosambalidade, sobre a especialidade territorial desta tal Pequena África, partido do elemento de memória de identidade. Cada corpo negroafricano carrega com sigo uma África ora desperta ora potencializada, e era isso que as Tias Baianas realizavam nesta Grande África que se transformou o Rio de Janeiro, principalmente no pós-abolição. (Ao mesmo tempo que surge a Deixa Falar no Centro, surge a Mangueira na Zona Norte e, na ainda região rural de Madureira, surge a Portela.)

Samba em quimbundo, no dicionário bantu de Nei Lopes, se traduz por “orar, rezar". E quem detinha o poder religioso sobre o samba? As Tias Baianas, as yalorixás, as mães baianas de santo, as baianas de ganho, as baianas de rua, as baianas do acarajé, as baianas do Samba ou simplesmente baianas. Os cortejos carnavalescos têm como essência tradicional sua ligação religiosa, a partir da obrigatoriedade da ala das baianas em todas as escolas, as protetoras e detentoras do axé (força vital). Com o surgimento das primeiras escolas de samba nos anos 20 do século passado, estas baianas ganham um conceito de homenagem. As escolas de samba surgem a partir dos sambistas compositores e bateria, passistas e baianas, formando as bases sólidas de qualquer agremiação. 



A Estética das Baianas se configura por saia longa, a bata ora rendada ora sem renda, o turbante na cabeça, o pano da costa e os balangandãs em determinadas ocasiões, eram as donas das ruas no período em que a mulher branca era submissa em detrimento do patriarcado europeu, em que o homem branco era o senhor e o homem negro era marginalizado ou levado a trabalhos braçais longe das vistas das populações do centrais. No caso o cais do Porto, muitos trabalhavam na estiva. 

Então, estas baianas eram as donas das ruas da cidade, vendiam seus quitutes para o ganho familiar, assim como no matriarcado africano, a economia alimentar era função feminina. Raul Lody considera a indumentária das baianas como um território de identidade experimentada no corpo, reflexo da cultura, crenças e modos da vida negra africana. 

No período colonial, para o escravizado, ter roupa era sinônimo de luxo. Cada indivíduo, dependendo dos senhores e das senhoras, tinha o direito de ter até duas peças de roupas, que eram feitas na tecelagem funcional das fazendas pelas próprias mulheres negras. O primeiro esboço da roupa das baianas se chamava roupa de sura, que era composta por saia e camisa, sem nenhum adorno, já que era proibido por lei escravizados usarem joias. Anos mais tarde nos terreiros, foi adotada a roupa de ração, um traje liso, sem anáguas, com camisa lisa ou sem, e saia na altura do busto. No pós-abolição, trabalhando como ganhadeira, saía às ruas vendendo seus quitutes, frutas e objetos artesanais trazidos dos mercados da Costa do Marfim.  

Artesanal eram também as fantasias das baianas nas Escolas de Samba. Para Candeia e Isnard, as religiões afrodiásporicas são importantes instrumentos de resistência e memória. As Tias Baianas em seus terreiros protegiam todo o sagrado das Escolas de Samba do racismo policial e da branquitude, “foram perseguidos pela polícia, sua luta foi muito grande, seu esforço extraordinário a fim de manter seus hábitos e preceitos". 

Na arte africana ou afrodiásporica, a matrilinearidade tem simbologia centrada na figura feminina, da mulher preta. A centralidade no Rio de Janeiro nestas mulheres foi muito importante. São elas as matrigeradas da fertilidade (quem dá a vida e também que trazem a ela) e da alimentação, foram elas quem cuidaram e cuidam do nosso sagrado, são as resistências das nossas linhagens e quem tecem nossas memórias espirituais. 



A partir da entrada de pessoas alheias às Escolas de Samba, estas mulheres sacras são desvalorizadas como a modificação de suas indumentárias  que passam a ser parte do enredo e não uma visão de sacralidade artesanal coletiva, ganham uniformidade e perdem tradicionalidade com a desculpa da modernidade e criatividade de um especialista em indumentária, muitas vezes com a visão eurocêntrica dentro de um espaço africano e afrodiásporico. 

Mesmo com tudo isso, as baianas não vão acabar e seu sentido matriarcal não se findará. Sua arte de tecer caminhos e descaminhos resistirá enquanto existir um ventre de uma mulher preta. 



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Mês a mês mergulhando em diversos universos particulares que formam as complexas organizações que são as escolas de samba, o Carnavalize decidiu derrubar o protocolo social convencional de evidenciar mulheres apenas em março, quando comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Por isso, a partir de agosto, todas às segundas-feiras, nossos leitores acompanharão em nosso site um novo capítulo de uma série pensada para enaltecer, contar histórias, lembrar figuras e propor reflexões acerca do papel feminino no carnaval. 

Arte: Lucas Monteiro.


Por Talitha Dejesus
com colaboração de Luise Campos e Beatriz Freire



“Eu nasci no Beco do Chapéu. Nós começávamos tocando o tamborete, os homens pegavam caixa de fósforo e as mulheres apareciam com o pandeiro e a viola, ah! Sambávamos até o dia amanhecer, porque não existia diferença entre homens e mulheres.”
Dona Zelita de Saubara


Peço licença para louvar minhas ancestrais...

O mesmo samba que alegra nossas vidas hoje teve como primeiro palco os quilombos do Brasil. E pode-se dizer que se não fosse a presença das mulheres negras, ele não teria resistido, pois o papel delas foi essencial para sua sobrevivência no período pós-escravidão. Não há como negar que o samba ainda é um território hegemonicamente masculino e que as mulheres ocuparam por um longo tempo o lugar de objeto em suas letras e batuques, mas devemos lembrar que não começou assim...

Logo após a Abolição da Escravatura (1888) e da Proclamação da República no Brasil (1889), muitas pessoas pretas migraram para capital nacional daquela época – Rio de Janeiro – em busca de oportunidades de reconstruírem suas vidas como cidadãos livres. Nesse processo, desembarcaram por aqui as tias baianas que trouxeram em sua bagagem os fundamentos que deram origem ao samba que, em seus primórdios, eram festas e batuques que promoviam o fortalecimento de laços comunitários e redes de sociabilidade entre a população negra.

Num processo que podemos chamar de higienização social, o período pós-abolicionista marcou a forte perseguição a todas as manifestações culturais de raiz africana. Assim eram proibidas danças e crenças populares, como capoeira, candomblé e o samba, que foi associado como música de marginais. Já em 1830, no Código Criminal do Império, havia um capítulo que tratava “dos vadios e mendigos”, que previa pena de prisão para quem não tivesse “ocupação honesta e útil de que possa subsistir, depois de advertida pelo juízo de paz, não tendo renda suficiente”. Em 1890, o Código Penal vinculou a esse dispositivo legal os praticantes de capoeira. 

Não é difícil imaginar, desta forma, que os homens negros eram os mais prejudicados por essas regras. Afinal, isso os afetava diretamente, já que dificilmente tinham oportunidades para obter trabalho formal, devido ao forte preconceito racial da época e impossibilidade de ingressar em instituições de ensino.

Nesse contexto, a importância das mulheres negras foi fundamental. Muitas das vezes, eram elas as responsáveis por manterem economicamente suas famílias, pois continuaram a trabalhar em serviços domésticos e ganharam as ruas vendendo seus quitutes. Além disso, construíram grandes quilombos de resistência, acolhendo sua comunidade em seus quintais. O mais famoso deles foi o de Tia Ciata, que além de grande anfitriã e cozinheira, também foi uma grande articuladora política.

A lendária Tia Ciata representada no desfile do Acadêmicos do Salgueiro em 2007. Foto: Wigder Frota


Hilária Batista de Almeida, nascida em Salvador no ano de 1854, chega ao Rio de Janeiro aos 22 anos trazendo seu talento para a liderança e sólidos conhecimentos religiosos – já feita no santo – e culinários. Veio morar junto à grande colônia baiana que se estabeleceu na cidade, especialmente na região central, junto com uma filha, que teve de uma relação com Norberto da Rocha Guimarães, conterrâneo que também veio para a capital, mas não teve contato com as duas depois disso. Viria a se casar com também baiano João Batista da Silva, com quem teve 15 filhos. O marido havia cursado a Escola da Medicina da Bahia – sem completar os estudos – e, no Rio de Janeiro, teve empregos estáveis, chegando a ser funcionário público. Por intermédio de sua esposa, alcança um posto de trabalho privilegiado no gabinete do chefe de polícia. Obra e graça de ninguém menos do que o Presidente da República à época, Wenceslau Brás. O político, segundo relata a história, teve uma ferida curada através dos conhecimentos sacerdotais de Ciata e passou a tê-la em alta conta.

Os festejos para os orixás na casa de Ciata de Oxum, na Praça Onze, eram memoráveis. A cerimônia religiosa era sucedida pelos batuques festivos – na verdade, as duas manifestações acabavam por se amalgamar – e chegavam a durar até três dias. Os participantes iam trabalhar e voltavam para a festa, que seguia viva, com a anfitriã sempre se preocupando em requentar as panelas para alimentar os sambistas. A comida, que alimenta corpo e alma, tem papel nobre e é tradição ancestral matriarcal que até hoje podemos vivenciar nas quadras das agremiações e em rodas de samba pelo Brasil.

Porém, se engana quem pensa que Ciata que se restringia a essa função: a tia baiana era partideira de primeira, respondendo aos refrões e cantando com autoridade. Inclusive, muito se fala da polêmica da gravação de “Pelo Telefone”, em 1916, como marco histórico, dando-se ênfase a distintos questionamentos do ponto de vista da precisão do fato, a começar pela data em que teria ocorrido. No entanto, de um deles pouco se fala: tia Ciata, como exímia compositora que era, reclamou a coautoria da canção junto a sambistas que foram consagrados pela história. As mulheres musicistas – que terão mais espaço em um dos próximos artigos desta série – podem, portanto, se sentir representadas pela matriarca do samba, embora pouco se fale dessa sua faceta.

Nesse momento, voltamos à fala de Dona Zelita de Saubara, sambadeira do Recôncavo Baiano, que abre nosso texto. Quando ela diz que “não havia diferença entre homens e mulheres”, fica claro que o papel da mulher também era o de protagonismo. Mas houve, historicamente, um processo de deslocamento da centralidade de seu papel, o que nos toca corrigir, jogando luz sobre a trajetória dessas pioneiras.

Ciata, portanto, foi líder, protetora, uma das primeiras organizadoras de agremiações carnavalescas (participou da criação de ranchos) e, graças a sua influência no meio político, contribuiu para o estabelecimento do samba como manifestação da cultura negra e popular no contexto de perseguição que sofriam as manifestações de origem africana. Ela, assim como tia Ester, tia Perciliana e tantas outras que entraram para a história como as matriarcas do samba com trajetórias de vida similares, tiveram papel fundamental para que pudéssemos chegar até aqui. 

A ala de baianas da Estação Primeira de Mangueira em 2018, homenageando as matriarcas tradicionais da Praça Onze. Foto: Valéria Del Cueto.


Não à toa, a valorização da ala das baianas nas agremiações é uma forma de homenagear a memória de todas essas tias baianas. A figura das matriarcas detentoras de todo o axé – a força essencial que forjou o samba e as agremiações carnavalescas, e por isso, também, as mulheres são o seio do desenvolvimento dessa rede de sociabilidade musicada – está diretamente associada à representação das mulheres escravizadas, denominadas “de ganho”, ou recém-alforriadas, que circulavam pelas ruas com seus fartos tabuleiros posicionados no topo da cabeça. Na maioria das vezes, eram filhas ou mães de santo cumprindo suas obrigações. Ficaram conhecidas também com as “baianas de acarajé”. 

A imagem da baiana sofre algumas alterações de acordo com a região e o contexto no qual está inserida. No Carnaval carioca, de pano da costa, torso, bata e saia rodada, ela foi incorporada e traduzida como expoente dos símbolos brasileiros, com todos os trejeitos e características que o termo “baiana” – dos mais variados significados – traz. Os desfiles das escolas de samba, para se mostrarem como fidedignos representantes da cultural popular, lançaram mão desta tradicional figura também para comunicar a mensagem de autenticidade dessa manifestação aos olhos do público e dos intelectuais modernistas. Vale lembrar que seu início coincide com os movimentos de busca por identidade brasileira no modernismo a qual o samba serviu, num sentido de ida e volta do ponto de vista da negociação para ser aceito pela sociedade. Saiba mais aqui.

Pintura da escritora Cecília Meireles sobre as baianas e o samba, publicado no seu livro "Batuque, samba e macumba" de 1933. 


Mas, curiosamente, quando os cortejos das escolas de samba deram largada no despontar da década de 1930, elas, na verdade, eram eles. Salete Lisboa, julgadora e jornalista, alerta para a presença unânime de homens que compunham as alas: tratava-se de uma estratégia de defesa do cortejo, quando giravam com navalhas nas barras das saias para que pudessem proteger quem estivesse na pista. A presença masculina foi proibida a partir de 1990 e chegou a reconsiderada em 2006, quando homens puderam integrar novamente as alas das baianas nas escolas dos grupos de acesso.

Com o crescimento da festa, a remodelação da concepção narrativa e visual de desfiles a partir da revolução salgueirense (saiba mais aqui) afetou também as grandes mães do samba, que foram funcionalizadas dentro do novo molde a serviço dos enredos. Assim, vestiam, para além de suas indumentárias, a função de representar um elemento da narrativa a ser contada, aglutinando suas personagens a uma segunda. Não por acaso, elas são segmento obrigatório de todos os desfiles, ainda que não estejam sobressaltadas em um quesito próprio.

Os tabuleiros, que antes iam na cabeça, hoje são servidos em pratos nas barraquinhas de comidas aos arredores de cada agremiação. Esta é uma ligação direta das mães ancestrais com o sagrado, quando estas iabás coordenam a feitura e o serviço do sabor entranhado de liturgias particulares. Tantos pontos permeiam as histórias dessas tias essenciais que giros de braços abertos com o rodar da saia podem até dizer por si só, mas exigem mergulho profundo para que possam revelar tudo que guardam.

Essa ideia da reunião e do acolhimento através da comida, como por exemplo, acontece também com a feijoada, nos possibilita uma grande rede de afeto. Historicamente, as mulheres negras tiveram muitas vezes a formação de suas famílias negadas, então é habitual laços afetivos serem formados nestes espaços de cultura. Quem não conhece uma tia baiana ou integrante da velha guarda que é figura cativa de uma escola de samba e acolhe a todos como se fossem seus filhos?

Com o passar do tempo, o papel das mulheres foi sendo ressignificado e elas passaram a ocupar outros espaços. Como reflexo da sociedade precisaram resistir a pressões machistas desenvolvidas por um sistema patriarcal. E a luta por protagonismo das mulheres, sobretudo as negras, se estende até os dias atuais. Aquelas que ocupam espaços que foram normatizados como sendo masculinos ao longo do tempo, mesmo que inicialmente tenha tido esse protagonismo, hoje são alvo de críticas e questionamentos.


Tia Vicentina da Portela foi uma dessas mulheres que reuniu ancestralidades e saberes da típica figura da baiana fazendo da sua feijoada um sucesso. Foto do Acervo Compositores Porteleneses.


E o samba, que sempre foi símbolo de resistência negra, foi colocando a mulher, negra principalmente, em um lugar menos acessível. A mulher negra sempre foi estigmatizada pela sociedade brasileira, visto o seu histórico de sofrimento social e desumanização. As manifestações culturais que têm origem dos ex-escravizados foram um meio encontrado por estas pessoas para conquistar um seu espaço na sociedade e uma busca por identidade coletiva. Porém, a partir do momento em que esses espaços passaram a ter mais visibilidade e financiamento, essas mesmas mulheres negras perdem seu prestígio. Mas, ainda, assim, o que vemos hoje são mulheres ocupando os mais diversos papéis e atuando no Carnaval de distintas formas. Seja como pastoras, baianas, passistas, madrinhas, carnavalescas, porta-estandartes, intérpretes ou até mesmo como operárias do samba, elas estão presentes na maior festa popular brasileira.

Maria Beatriz do Nascimento, historiadora e sambista, em seus estudos, comparava o território de uma escola de samba a um quilombo. Quilombo, por sua vez, uma palavra de origem bantu, significa fortaleza. Acredito que o legado das mulheres na história do samba é justamente esse: fortaleza! Que nós, mulheres do samba, possamos contar nossas verdadeiras narrativas, amenizando as dores diárias e celebrando as alegrias que o samba e o Carnaval nos proporcionam.

É certo o dito que preconiza que quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai. Que com isso, a gente não esqueça quem veio antes de nós e nos deixou tudo isso como herança e que possamos ocupar todos os espaços que quisermos dentro da Folia de Momo.  

Confira os demais textos da Série Mulheres, que investigam a história das escolas de brasileira pela ótica feminina. O passeio começa pelo seio feminino das ancestrais do samba, segue pelas líderes e fundadoras que fizeram história.  O terceiro capítulo passa pelas Rainhas do canto e da dança: a atuação das mulheres no universo musical, até chegar na Heroínas do barracão: a atuação feminina na construção artística do carnaval


Referências bibliográficas

MOURÃO ARAÚJO, Vania Maria. Yes, nós temos baianas: o processo de formação da imagem da baiana de escola de samba no Carnaval brasileiro. Revista Áquila, setembro de 2016. 
MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1983.  
SANTANNA, Marilda (org.). As bambas do samba: mulher e poder na roda de samba. Salvador: EDUFBA, 2016.
https://noticiapreta.com.br/quando-as-baianas-eram-homens/
http://www.justificando.com/2016/08/09/sobre-a-vadiagem-e-o-preconceito-nosso-de-cada-dia/

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A ala das baianas é sempre um momento especial de uma escola na avenida, atualmente elas sempre encarnam figuras importantes do enredo, desfilando com as mais diferentes indumentárias. A nossa cidade do carnaval hoje será tomada um mar de saias rendadas, torços, panos da costa e muitos balangandãs. Pegue seu turbante e suas pulseiras e venha conhecer a história desse ícone hoje.


Já no primeiro desfile oficial das escolas em 1935, organizado pela UES, dois itens do regulamento causam estranhamento vistos hoje. A proibição dos instrumentos de sopro e a obrigatoriedade das alas das baianas. Por que as escolas recém criadas, com seu primeiro desfile três anos antes, teriam escolhidos tais itens?

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A figura da baiana como quituteira e sua roupa volumosa eram uma das marcas do Rio de Janeiro, fazendo com que a baiana seja uma invenção carioca. Aqui elas eram diferenciadas e assim chamadas, na Bahia, eram apenas mulheres quituteiras. Desde o século XIX, com as escravas de ganho, a figura circulava pela cidade com seu tabuleiro sendo retratada por diversos artistas viajantes, como o icônico Debret. Já no início do século XX, a baiana já era vista com um dos símbolos cariocas, seja por seus dotes culinários ou religiosos. Foi na barra de uma delas que o samba nasceu, no terreiro da imortal Ciata. Dentre outras mães de santos que habitavam a região conhecida como Pequena África, atual zona portuária. 




A figura de torso e pano da costa é exemplo fundamental para entendermos a consolidação do samba e do carnaval como símbolos nacionais, pois está marcada por uma série de tensões e negociações. Primeiro pois sua figura é mais complexa do que imaginamos. Apesar de ser lida como uma figura negra, a sua típica indumentária com rendas e anáguas é tipicamente branca e europeia. Internacionalizada, pela "portuguesa mais carioca" que o mundo já viu. Carmen Miranda é parte fundamental dessa história, pois deglutiu as baianas negras e as transformou num ícone de brasilidade a ser vendido para os outros países, numa época em que o Brasil procurava constituir sua imagem como nação perante o mundo. A icônica "O que é que a baiana tem?" do imortal Dorival Caymmi se consolida como um verdeiro check list do que categoriza uma baiana legítima. 

A obrigatoriedade da ala nos primeiros desfiles afirmava a tradição das recém criadas instituições carnavalescas. A figura africana remetia a ancestralidade do samba e das escolas, virando rapidamente uma das marcas dos grupos que se apresentavam na Praça XI.  Juntos a baianas, os malandros e as passistas virariam três figurais fundamentais do carnaval, retratados nas pinturas modernistas do período. Artistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Goeldi e Cândido Portinari buscavam dar cores a essa ideia de Brasil que vinha se formando. A terra do samba e pandeiro. 



No mundo dos confetes e serpentinas, a mais tradicional ala vem sendo desde sempre ressignificada e ganhando novas características com a mudança dos desfiles ao longo da história. Diferentes carnavalescos usaram a longa saia para reinventar o conceito de baiana e nos brindar com belíssimas fantasias. O barroco Arlindo Rodrigues marcou sua passagem na Imperatriz com baianas inesquecíveis no campeonato de 1980 sobre a Bahia. Esculturas de grandes negras foram um dos pontos altos daquela apresentação e a ala desfilou duas vezes, uma com seus quitutes e panos da costa verdes e outra mais barroca, com elementos dourados.

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O irreverente Fernando Pinto usou e abusou das senhoras de Padre Miguel para levar para avenida as mais divertidas e tropicalistas baianas que a Sapucaí já viu. Seja com perucas coloridas, saias de oncinha ou seres siderais. Trazendo muitas inovações no formato da roupa que fizeram alguns tradicionalistas torcer o nariz, mas trouxeram ainda mais modernidade e beleza para as herdeiras de Ciata.

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Outra que sempre aproveitou a roupa volumosa e fez verdadeiras joias foi a Deusa Rosa Magalhães. A versátil carnavalesca já apresentou as mais diversas fantasias. Em 1987 no Tititi da Estácio, suas “baianas da liberdade” foram criticadas pela ousadia de trazer uma saia em três camadas, invés de uma só. Na sua longa paisagem pela Imperatriz, as senhoras assumiram as mais variadas formas, de borboletas a azulejos portugueses. Já no seu título mais recente, ela trouxe a beleza de belas joaninhas para a Vila Isabel.

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Se alguns tem nas baianas o ponto alto de sua carreira, outros tentam ousar e reinventar a roupa mas acabam pecando em excesso. Se nas alegorias, as ousadias de Paulo Barros são sempre recebidas com aplausos, na tradicional ala o mesmo não acontece. Seus figurinos nos últimos anos são exemplo de gosto duvidoso e até certo desrespeito com a ala. Inovações são sempre bem vindas, mas na medida certa. 


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Fora isso, as verdadeiras herdeiras de Tia Ciata também já se apresentaram ultimamente com formatos que fugiam do tradicional: ou com saias vazadas, colocando as pernas de fora, ou em formatos não convencionais na saia. Em 2007, a Porto da Pedra apresentou, o que pode ser considerada, a maior ala de baianas da história que cobria um setor inteiro com uma roupa em três cores branco, cinza e preto. Assinadas pelo apoteótico Milton Cunha. 
  
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Em 2014, um fato curioso aconteceu. As escolas Imperatriz e União da Ilha apresentaram fantasias muito parecidas, com a saia em formato de bola de futebol. Uma feliz coincidência. Algo parecido também aconteceu em 2006 e 07. A Viradouro desfilou com baianas bem parecidas com que a Mocidade havia apresentado um ano antes. 


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Recentemente uma grande polêmica tomou conta do mundo do samba com o anúncio feito pelo Laíla dizendo que a ala das senhoras viria com os seis nus na fantasia que contaria o enredo sobre Iracema. O mundo do samba se dividiu entre os que aprovaram ou não a ideia. Longe de polêmicas, nossas mães da folia são um dos saberes essências da festa. Uma homenagem as raízes da folia. Com ou sem pano da costa, com ou sem sutiã, sempre serão um dos maiores ícones e a representação máxima da folia brasileira. 

As baianas ainda não sei o que elas têm, que as deixam tão esplendorosas. Mas se as escolas de samba são o que são, é porque baianas elas têm. 



*Foram usados como base pra esse texto o artigo e dissertação "Yes, nós temos baianas: o processo de construção da figura da baiana de escola de samba do século XX" de Vãnia Araújo Mourão e os artigos sobre o tema de Roberto Conduru encontrados no livro "Pérolas Negras".






Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro. Atualmente, cursa História da Arte na UERJ onde pesquisa também sobre o tema.

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